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18 de Novembro de 2017

Análise da obra “Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora?”, de Jessé Souza

Victor Meira, Estudante de Direito
Publicado por Victor Meira
há 2 anos

O livro ora examinado estabelece a definição de uma nova classe social, situada abaixo das classes alta e média, e acima da “ralé brasileira” – esta formada pela massa de trabalhadores pobres, viventes nas condições mais precárias, estudada pelo autor em obra anterior.

O novo segmento social, por sua vez, é constituído por pessoas que emergiram da “ralé brasileira”, para se tornar uma segunda (ou nova) classe média, incluída no sistema econômico, produzindo e consumindo bens e serviços, por resultado do esforço individual daquelas pessoas. O autor a denomina como “nova classe trabalhadora brasileira”, ou ainda “batalhadores brasileiros”, e estima o número de habitantes nessa condição em 30 milhões.

Para utilizar a nomenclatura “classe”, no entanto, Jessé Souza define este conceito como não sendo referente à renda dos indivíduos, mas antes disso, à herança imaterial recebida pela pessoa, traduzida nas disposições que caracterizam cada uma das classes sociais, e que geralmente são transmitidos a partir da convivência, da criação e dos exemplos existentes no ambiente familiar. Vale ressaltar ainda, que as mencionadas disposições poderão ser atualizadas e adaptadas pelo ou para o (s) ambiente (s) de trabalho que o sujeito enfrenta durante sua vida.

Assim, o que distingue uma classe da outra é o estilo de vida e a visão prática de mundo, não o poder econômico e o padrão de consumo. Por isso, Jessé defende que não se pode chamar a classe dos batalhadores de “segunda classe média”, uma vez que os novos trabalhadores diferem visceralmente da classe média clássica nos quesitos acima.

Essa nova classe é resultante de mudanças sociais que acompanharam transformações no capitalismo brasileiro e mundial. Este sistema econômico, cujo objetivo é a acumulação infinita de capital, sempre necessitou esconder-se atrás da afirmação de que o lucro, que é um meio, seria em verdade sua finalidade. Dessa forma, toma a aparência de um sistema desvinculado de limites e justificações morais a fim de legitimar sua existência. Essa legitimação envolve a ideia de que o produto da acumulação material é o bem-estar social, de modo que o sistema encontra um “espírito” que justifica seu processo.

Veremos que a dominação cultural e simbólica do capitalismo financeiro, ou flexível, incluindo as suas implicações nas relações de trabalho e de consumo, determinam de maneira crucial a trajetória e as projeções dos batalhadores em suas vidas, famílias e empregos. Contudo, para analisar a relação do capitalismo com essa nova classe, é necessário compreender as transformações que o sistema sofreu nos últimos cem anos.

No início do século XX surgia nos Estados Unidos o Fordismo, que marcou a fase capitalista em que, por um lado os trabalhadores eram controlados rigidamente – controle e vigilância que traziam gastos crescentes aos empregadores – e submetidos à disciplina de um trabalho hierárquico e repetitivo, mas por outro recebiam bons salários e garantias sociais.

Após esta fase, o Toyotismo surgiu no fim do mesmo século, que além de criar uma produção flexível, determinada pela demanda, tratou de criar um exército de soldados do capital. Seriam trabalhadores que, motivados pela concorrência do mercado, passaram a dar não apenas o suor de seus corpos, mas suas “almas” pelas empresas, devendo a elas completa obediência e exercendo o papel de vigilância entre eles mesmos, e, consequentemente, permitindo o corte dos gastos referentes ao rígido controle dos empregados.

Dessa forma, este sistema de capitalismo é marcado pela flexibilidade, não apenas da produção e da organização, mas também a capacidade de adaptação dos trabalhadores às condições deles exigidas. Tal característica é exatamente uma das mais presentes e decisivas no surgimento da classe dos batalhadores.

A partir dessa ideia de capitalismo e da nova classe de trabalhadores, o autor passa a trazer exemplos a fim de ilustrar as características e condições dos batalhadores. Inicialmente, apresenta a situação dos operadores de telemarketing, mostrando dois casos de trabalhadores dessa área.

Rodolfo, o primeiro, alega que é um trabalho em que se tem que “suar a camisa”, cumprindo uma jornada de 6 horas, atendendo um fluxo intenso de ligações que gera grande tensão. Seus supervisores cobram dele que atenda e resolva, em tempo mínimo, os problemas apresentados pelos clientes, constantemente sendo obrigado a bater metas de atendimento. O espírito empresarial responsabiliza o operador por sua produtividade, e culmina no fato de que o empregado acaba culpando a si mesmo pelo fracasso. Nesse ponto, o autor não deixa clara a relação dos referidos supervisores com a suposta ausência de gastos com vigilância e controle, típica do capitalismo flexível.

O garoto de 21 anos possui ensino médio completo e ainda não cursou o ensino superior, sente-se desmotivado a estudar, ainda mais com todo o estresse gerado pelo trabalho precário que exerce. Como a escolarização tem sido democratizada no país, um diploma de segundo grau não tem mais tanta força como outrora, sendo hoje considerada uma relativamente baixa qualificação. Deveras bem observada por Jessé a “inflação dos diplomas escolares”.

Além disso, Rodolfo reclama de dores no corpo, na cabeça e nos olhos, causados pelo emprego na área de telemarketing. O impacto sobre o corpo dos operadores leva a questionar até que ponto esta é uma atividade puramente intelectual. O autor conclui que é um misto de atividade física – braçal – e intelectual, apesar da aparência de serviço de escritório, já que o empregado é forçado a uma posição rígida durante o expediente e é submetido a movimentos corporais repetitivos.

Este trabalho, então, apesar de formal – diga-se, um dos poucos dentre aqueles ocupados pelos batalhadores – é considerado precário, porquanto exige altos sacrifícios pessoais, físicos e psicológicos, “corpo e alma” do trabalhador, tirando dele a possibilidade de ascensão sócia enquanto o esgota em uma jornada que apenas aparenta ser curta. Ele não tem opções, senão adaptar-se às condições impostas pela empresa.

O aspecto familiar também é marcante aqui, pois surge a cobrança de dedicação aos estudos vinda da família de Rodolfo. No entanto, o autor aduz o papel de produção de violência simbólica por parte da escola. O gosto pelos estudos não se origina necessariamente na vontade consciente do indivíduo, mas de uma disposição criada num contexto social anterior, predominantemente familiar, tornando-se algo pré-reflexivo. Portanto, a obrigação que o garoto sente com relação a trabalhar acaba por atrapalhar, também, os estudos.

Luciana, de 20 anos, a segunda operadora de telemarketing, diz que a função a deixou mais agressiva e impaciente em suas relações privadas. Diferente de Rodolfo, ela cursa um faculdade, concomitantemente ao emprego. Transparece nela a disposição para o trabalho duro criada no ambiente familiar, além da disposição à valorização da educação. No entanto, acompanha a característica geral dos batalhadores: o estudo não vem antes do trabalho, e sim este é que cria a possibilidade de se estudar.

Ela demonstra, ainda, como o “espírito” capitalista se incorpora em “carne e osso”, pois os padrões empresariam pós-fordistas concretizam-se em sua forma de ver o mundo, na qual não há ascensão sem sacrifício pessoal pelo trabalho. Dessa forma, o telemarketing aparece como uma opção precária de trabalho formal, que se aproveita de pessoas com escolaridade média – o que não falta no mercado -, dispostas ao trabalho duro, intenso e adaptável às exigências da empresa.

Assim, o cargo de operador de telemarketing resta como um dos exemplos de ocupação da nova classe de batalhadores brasileiros, marcado pela insegurança social e ausência de garantias; trazendo a tona a dominação de um capitalismo que estrutura as relações de trabalho a partir da economia; e empregando pessoas com fortes disposições ao trabalho duro e sacrificante; impondo aos trabalhadores uma atividade rotinizada, repetitiva, que tem como consequência cansaço mental, insatisfação pessoal, estresse emocional e problemas psicológicos.

A seguir, são apresentados os batalhadores feirantes. O ambiente da Feira de Caruaru é descrito como envolvendo direta e indiretamente mais de 100 mil pessoas; com vias sujas, banheiros insuficientes, organização desordenada e aleatória de barracas; presença de pedintes, pessoas procurando trabalho, prostitutas, jovens cheirando cola e realizando furtos; possuindo um rio invadido e tomado pelo lixo. Pela breve descrição é possível imaginar as condições degradantes da feira, mormente para quem ali trabalha.

Para ilustrar o batalhador feirante e administrador, Jessé Souza cria o personagem-tipo-ideal denominado Pedro, que deixa em dúvida se, apesar de toda a pesquisa teórica e empírica, realmente não restou espaço para o preconceito em sua caracterização. De qualquer forma, Pedro é filho de um casal de agricultores pouco estudados, que se mudaram para Caruaru nos primeiros anos de vida do menino.

Pedro trabalhou em quase tudo na cidade, mas, ainda que trabalhando de dia e estudando à noite, conseguiu finalizar o primeiro grau. Na roça, auxiliava o pai na contagem, transporte e venda dos seus produtos agrícolas; já na cidade, continuou exercendo atividades similares na bodega dos pais. Trabalhou também de carteira assinada, por indicação de um primo, em uma transportadora de cargas de Recife. Após nove anos de serviço, foi demitido e resolveu “botar um banco na sulanca”, ou seja, uma barraca para vender roupas na parte da Feira de Caruaru destinada para tal.

Depois de mais seis anos, trocou a venda de roupas por uma barraca de alimentação, negócio que persiste até hoje, com a ajuda de sua esposa na cozinha. Aqui, o autor utiliza a trajetória de Pedro como base para examinar suas características de indivíduo-administrador, determinadas pelo conjunto de disposições, ou seja, o passado incorporado em comportamentos, práticas e opiniões, que os atores individuais herdam, ativam (e desativam) ou incorporam (e desincorporam) ao longo de suas vidas.

Foram identificadas em Pedro, então, três conjuntos de disposições: a) disposições para autossuperação; b) disposições econômicas; e c) disposições administrativas.

No primeiro grupo, sete disposições específicas: i) projeção dos filhos para ascensão; ii) fazer-se exemplo; iii) ascética; iv) aprendizagem pela experiência; v) projeção de futuro; vi) construção de imagem positiva; e vii) aquisição de bens de consumo “superiores”.

No segundo grupo, mais duas disposições específicas: i) cálculo econômico; e ii) poupança.

Por fim, no último grupo, sete disposições: i) cálculo econômico aplicado; ii) atendimento e trabalho comercial; iii) organização e coordenação de atividades; iv) “visão de negócio”; v) construção de imagem positiva; vi) aprendizagem na prática dos negócios; e vii) aprendizagem por meio da observação de outros negócios.

Através dos conjuntos de disposições e das disposições específicas, adquiridas por Pedro através de seu ambiente familiar, bem como de suas experiências no trabalho, portanto, é possível ver a forma como ele administra seu negócio. Além disso, identificam-se várias dessas disposições em outros batalhadores que ocupam outras funções, sempre calcadas na herança do capital familiar, principalmente a ética do trabalho. Ressalta-se o dado estatístico de que 86,7% dos entrevistados na produção da obra são filhos de pai e mãe juntos, ou seja, criados por uma família estruturada com relações bem definidas, ao contrário da “ralé”, que em regra apresenta famílias comandadas por mães solteiras, ou outras formas de família diferentes da famigerada “família Doriana”, veiculada midiaticamente como ideal de núcleo familiar.

Segue-se a apresentação de outro tipo de batalhadores, aqueles empreendedores rurais. Conta-se a história de Elimar, pequeno fruticultor rural gaúcho, dono de uma propriedade de 12 hectares, casado há 29 anos e pai de um casal de adolescentes. Conciliando trabalho árduo (que traz o saber prático) e conhecimento específico do ramo (buscado em variados cursos que tem em seu currículo), além do auxílio da família na força produtiva, começou a ter sucesso recentemente, após os 40 anos, uma vez que seu ímpeto empreendedor e o trabalho duro nem sempre foram sinônimos de bons resultados.

Vê-se que os “altos e baixos na vida” são mais uma característica identificada nos batalhadores, junto à incerteza e a instabilidade, enquanto sempre presentes a fé e a insistência, como que uma aposta na qual o corpo dedicado ao trabalho representa as fichas em jogo. Ademais, no caso de Elimar, como na regra da nova classe de trabalhadores, também foram transmitidas pela origem familiar a honestidade e a dignidade, mesmo perante as adversidades.

Assim, é possível perceber que o batalhador empreendedor reúne, além das disposições físicas, as reflexivas, evidentes na constante sede pelo aprendizado do conhecimento específico com o fim de aplicá-lo ao trabalho sacrificante, objetivando melhores resultados na agricultura. Aqui vemos novamente a necessidade de conciliar trabalho e estudo, mas as referidas disposições reflexivas aparecem justamente como a característica diferenciadora entre o batalhador comum e o batalhador empreendedor.

Essas disposições intelectuais possibilitam a atenção do batalhador às mudanças econômicas e às oportunidades de ação, culminando na chance de sucesso do empreendimento. No entanto, mais uma vez observa-se uma vida dura com quase nenhum lazer, na qual se pensa e age em prol de um futuro melhor para os filhos, transmitindo a eles o legado do trabalho, mas apostando na possibilidade de que os filhos não necessitem pagar com o corpo tanto quanto seus ascendentes.

O próximo perfil de batalhador é aquele que possui em sua família a unidade econômica de classe, que concentra as funções que foram, anteriormente, pertencentes às corporações: a produção e o controle do trabalho produtivo. Assim, adéqua-se a unidade familiar aos conceitos do novo capitalismo financeiro. Utilizou-se o exemplo de duas famílias do tipo.

A primeira, de Paulo e Helena. Paulo é um pedreiro que trabalha, em dupla jornada em média de 15 horas diárias, por conta própria desde a década de 1990, cuja inserção rápida, total e relativamente bem-sucedida se deveu à disposição desde a infância, aprendizado prático, para o trabalho duro. Hoje, aos 55 anos, percebeu-se que não conseguiria continuar por muito tempo o trabalho braçal que exerce, em razão de que comprou um ponto de táxi e trocou o turno da noite como pedreiro pelo de taxista. Helena, por sua vez, trabalha como camareira em uma pousada.

A vida do casal sempre foi repleta de privações, verificando-se aqui o ensino às filhas, através de conselhos e exemplos, de que o lazer deve ser sacrificado em favor de uma estabilidade futura, ensino esse também recebido por Paulo e Helena de seus pais.

Assim, a estrutura da família é marcada pela ética do trabalho duro e pela relação de reciprocidade, uma vez que os interesses individuais de todos os membros são sacrificados em benefício do grupo familiar. As duras experiências do passado delimitam as expectativas de um futuro tão duro quanto, sendo o controle excessivo uma forma de sobrevivência às inconstâncias do mercado.

Até mesmo a esfera erótica é minimizada, as relações afetivas são pautadas no reconhecimento mútuo de reconhecimento cotidiano da imprescindibilidade do outro para a sobrevivência do grupo e no respeito às necessidades do outro. Ou seja, o amor é mais fraterno do que passional, vivido no companheirismo, na lealdade e na compreensão das limitações do outro. É assim que as relações afetivas são afetadas pela consunção de todo o tempo livre pela atividade produtiva.

O segundo exemplo de família vem de Seu Luís, de 61 anos, médio proprietário rural, filho de trabalhador diarista e também adaptado à ética do trabalho duro desde a mais tenra infância, cuja exposição à inconstância desde cedo gerou a capacidade de se adaptar também a ela. O trabalho familiar é a base de sua propriedade, incluindo a divisão sexual e etária das atividades.

O aprendizado prático do trabalho, aprendido com o pai e transmitido aos filhos, tem o papel de possibilitar a mão de obra familiar, assim como de formar nos filhos as disposições necessárias a dar continuidade e reproduzir a propriedade e o grupo familiar. Aqui também se encontra a dependência mútua, no entanto aparece uma dominação geracional e de gênero mais vertical, intensa e explícita que no caso anterior, vínculo recíproco fundamental para o sucesso do batalhador empreendedor em questão.

Por consequência dessa relação duradoura, a família batalhadora reproduz membros capazes de enfrentar as instabilidades do mercado e se manter nele. Soma-se que há um “interesse desinteressado”, nas palavras de Bourdieu, pelo outro, indo muito além da instrumentalização imediata que intenta conseguir vantagem às custas do outro; pelo contrário, o objetivo é a sobrevivência física e social do grupo, através do trabalho como valor moral e da abnegação em favor do outro.

Voltando-nos aos batalhadores feirantes, temos novamente uma situação de instabilidade da classe social e de pressão cotidiana sob a qual se vive. Também na feira há o perfil do batalhador comum, que mantém a dignidade pela ética do trabalho e por disposições econômicas primárias, além do perfil do batalhador empreendedor, que além daquelas características, apresentam disposições secundárias para o comércio empreendedor.

Três casos do Mercado-Feira Ver-O-Peso de Belém foram retratados. O primeiro é de uma senhora católica e umbandista que, com apenas a venda de itens diversos, derivados de ervas locais, em uma banca de um metro quadrado, conseguiu criar noves filhos. Os produtos vendidos pretendem “segurar homem”, “engravidar”, “pegar mulher” etc. Vê-se outro traço comum dos batalhadores: alguma capacidade de trabalho de origem diversa do ensino formal na escola.

Através da cordialidade e da perseverança, a senhora conseguiu sucesso em seu negócio, demonstrando que ascensões econômicas não são sinônimas de ascensões sociais, e que não é necessário ser um batalhador empreendedor para obter crescimento econômico.

O segundo caso é de um vendedor de confecções, que possui a ajuda do pai, do irmão e da irmã em seu negócio, porém necessita de um segundo emprego como segurança particular à noite para manter condições dignas de sobrevivência, outro ponto comum entre a classe batalhadora. Já serviu o exército e praticou boxe, esse último apontado pelo autor, dentre outros esportes, como um fator de inibição do impulso para a criminalidade, natural de quem emerge de uma “ralé” que vive em condições indignas.

Outro apontamento é a disposição desportiva como sintetizadora de força e autocontrole. Verifica-se ainda uma disposição itinerante que auxilia na condução do negócio de vendas, o pai como referência moral de honestidade e batalha, e a noção de que a possibilidade de um futuro melhor para os filhos reside nos estudos. É mais um caso que apresenta crescimento sem configurar um batalhador empreendedor.

O último caso da Feira de Belém é de um vendedor de cocos, homem solteiro de 30 anos. Também possui a disposição para a autocontenção corporal, para o trabalho enfadonho e repetitivo, uma vez que exerce trabalho monótono que consiste em ficar muito tempo no mesmo lugar. São disposições que parecem se originar de um contexto familiar de honestidade e simplicidade, compondo a perseverança em uma vida dura e a adaptabilidade de uma vida incerta. Nesse caso, a grande referência moral é a mãe, que criou sete filhos sozinha, como empregada doméstica, uma vez que o pai abandonou a família ainda na infância do entrevistado.

Passando aos casos da Feira Livre de Caruaru, é possível exprimir a lógica centrífuga da reprodução do capitalismo, do centro para a periferia, através da configuração socioespacial e das hierarquias ocupacionais. Tal exemplo é visível em qualquer periferia, como os mercados municipais e camelôs do país inteiro, espaços de alta competitividade e improviso, demonstrando novos imperativos de “flexibilidade” e “adaptabilidade” no contexto periférico.

O primeiro caso é de João, 49 anos, casado e pai de uma filha criança. A família mora na própria barraca em que trabalham, realidade bem comum na Feira de Caruaru. A inconstância social levou a pequenas ascensões e quedas nos padrões econômicos, outro traço constitutivo da classe. Migrou e experienciou alguns anos em São Paulo, demonstrando a vulnerabilidade e necessidade de adaptação da classe. Lá, trabalhou em uma grande churrascaria, mas não conseguiu se estabelecer, voltando ao Nordeste. É outro exemplo de batalhador não empreendedor.

Outro caso é o de Zuleica, de 45 anos, dona de lanchonete na feira. Viveu uma infância tranquila no campo, mas mudou-se para a cidade a fim de não repetir o destino da mãe a se “casar com um matuto”. Completou o ensino médio e exerceu ocupações minimamente qualificadas, nas quais adquiriu disposições para constância, responsabilidade, compromisso, seriedade e disciplina. Então, resolveu abrir seu próprio empreendimento. Possui as disposições gerais de uma pequena comerciante, vivendo em contenção total e tendo como único lazer a televisão e o consumo. É mais uma batalhadora não empreendedora.

O último caso é de outro dono de restaurante, Eliel, 37 anos. Adquiriu na agricultura a disposição para o trabalho em um contexto familiar estruturado. Trabalha com a mulher e dois filhos, além de seis empregados informais. Por possuir, além das disposições econômicas básicas para administração e cálculo, disposições de liderança e ideias concretas acerca de mudanças e melhoras em seu negócio, é considerado um batalhador empreendedor. Seu único lazer é o futebol com os amigos aos domingos em seu sítio.

Tendo em vista as três trajetórias, tem-se que elas reproduzem certos padrões de classe: origem familiar estruturada, disposição para o trabalho esforçado e honesto e disposições econômicas básicas para cálculo e administração primários. O diferencial no batalhador empreendedor são as disposições e o cálculo para autossuperação e a disposição para chefia e liderança.

Com relação à classe batalhadora negra, o autor conta a história de três gerações da família Ramos, a fim de aclarar o racismo sobre pelos batalhadores negros. Laura é a 12ª filha de um total de 15 filhos, que teve uma relação conturbada com a família na infância e acabou indo morar no sítio de amigos da família, sendo treinada, desde cedo, para ser a ama da família, não muito diferente de seus antepassados recém libertos da escravidão.

No sítio, apaixonou-se por André, o carteiro que representava um dos poucos contatos que tinha com o sexo masculino. Casaram-se e tiveram 6 filhos, já na cidade, onde Laura aproximou-se da religião Metodista. Mesmo após infidelidades do marido, eles não se separaram.

O filho mais velho, Antônio, tem 60 anos e formou-se em Engenharia Civil e hoje vive como engenheiro na África. João, o segundo filho, trabalhou em empresas públicas por algum tempo e se tornou taxista, profissão na qual se aposentou. Eliseu, terceiro filho, não chegou a concluir o curso universitário que frequentou e hoje é funcionário público municipal. Rosa, quarta filha, formou-se em Enfermagem e hoje é chefe de enfermagem, enquanto cuida da mãe em casa. Casou-se, teve uma filha e separou-se cinco anos depois. Ana, a quinta filha, formou-se em Recursos Humanos, nunca se casou e tem um filho, hoje não trabalha para cuidar da mãe junto a Rosa. Fábio, o último filho, de 47 anos, formou-se em Engenharia Civil e hoje exerce a profissão na África a exemplo do irmão mais velho.

É interessante observar nessa família a grande influência da religião. Embora a Igreja Metodista tenha surgido com o intuito de agregar pessoas pobres, no Brasil acabou por reunir mais fiéis da classe média. Os poucos pobres, como a família Ramos, acabaram por ser segregados dentro dela, mas nunca perderam a fé ou deixaram de participar ativamente da vida religiosa. Além disso, em década na Igreja, apenas havia mais uma família negra naquele ambiente, fator decisivo para que sofressem grande preconceito ali.

Também na escola que os filhos e netos de Laura frequentaram, os membros da família foram alvo de racismo, bem como na vizinhança, que mesmo pobre tinha preconceitos de cor. No ambiente de trabalho, posteriormente, a discriminação continuou a ser enfrentada pelos Ramos.

Isso foi ainda mais pesado durante a vida das filhas mulheres, Rosa e Ana, que sofreram grande dificuldade no mercado matrimonial, vez que, quando jovens, mesmo os homens negros preferiam as mulheres brancas. Depois de mais velhas, o preconceito persistiu, somado ao fato de que os homens mais velhos preferiam as mulheres mais jovens. E brancas.

Nesse contexto, surge a problemática do embranquecimento, processo inescapável aos negros que, ao passo que conseguem uma condição econômica e social melhor, têm que se mostrar limpos, bons, pessoas de sucesso e honestas. Tudo isso demonstra que a luta para o batalhador negro é ainda mais difícil que a do branco.

Seguindo-se, muitos relatos foram colocados para exemplificar alguns tipos de indivíduos presentes dentro do grupo batalhadores. Porque, como o próprio texto pondera, o grupo é heterogêneo e há elementos que os distanciam em questões trabalhistas, religiosas e morais. Contudo, eles possuem muitos elementos com teor aproximativo, especialmente pelo fato de serem solidários entre si pela complacência com acontecimentos com outros indivíduos que eles se identificam. Isso é reforçado no capítulo quando o autor expõe o que é chamado de “lulismo”.

O movimento nada mais é que a personificação do ex-Presidente como um homem dentro do estilo dos batalhadores. Por ter crescido e melhorado de vida a ponto de sair de operário oprimido e mandado de fábrica para assumir cargo político central na administração do país. Isso traz a esperança e a fé na possível prosperidade das pessoas dessa nova classe. Além de maior identificação deles com este homem, tornando-o próximo, símbolo e alvo de admiração; o que seria transformado em “mito do lulismo”. Ele é considerado a pessoa articuladora; na verdade a personificação da articulação, como que uma voz da consciência, da organização da classe anteriormente confusa e fragmentada.

Esse movimento é citado no texto após alguns programas de melhorias da população são citados e mostrados como auxiliadores no crescimento dos batalhadores no geral e especialmente dos citados ao longo do capítulo. Programas tais que foram acusados de servirem de base para arrecadação e garantia de votos nas camadas mais basais da sociedade. Porém, é claramente mostrado a possibilidade de crescimento (a chance, a abertura de portas popularmente falada) que eles propiciam. Tendo as famílias ou pessoas beneficiadas a plena consciência do objetivo deles. Muitos relatos falam que o Bolsa Família, por exemplo, serviu de garantia para a pessoa poder investir em trabalho, capacitação ou empreendimentos novos por saber que o básico estaria garantido para seus filhos. Assim, puderam se tornar batalhadores com sucesso e perspectiva.

Esses projetos sociais promoveram o suprimento de necessidades imediatas para a população, ponto principal de interesse das camadas de base que observam o hoje e os problemas de ação imediata que precisam resolver. Principalmente se tratando a fome que é constante e não é possível enganar. Sendo essa a grande justificativa para a aceitação dos projetos sociais e do presidente Lula pela população.

Quanto aos personagens populares apresentados no capítulo, cada um apresentava alguma particularidade ou característica para o tornar importante, ou seja, eles apresentavam meios diferentes para chegaram ao mesmo objetivo: consolidar seu sucesso e seu estado batalhador. Passando por situações variadas como as passadas por Das Dores, indivíduo que chamou atenção por ser um exemplo feminino que não se deixou abalar pelas questões ligadas ao marido que some e a rouba, além da necessidade de sustentar sozinha seis filhos e querer dar um futuro digno para eles.

Além da reflexão sobre os conceitos “a glorificação do oprimido” e “legitimação da opressão”, ressalva-se a visão do trabalhador de se distanciar de práticas antigas para progredir, dentro da temática rural e de comunidades étnicas específicas que foram apresentadas ao longo dos parágrafos. Pois ao reconhecer a existências de novas técnicas e tecnologias para a realização de certas atividades, torna-se importante a aplicação delas nas realizadas pelo indivíduo.

Em alguns relatos presentes no texto, personagens falam da existência de resistência entre alguns companheiros na realização de modificações. Ou mesmo que estudiosos recomendam que algumas técnicas tradicionais sejam mantidas para a prosperidade da cultura secular de alguns grupos. Mas, eles mesmo refutam pelas necessidades diretas requererem avanços tecnológicos para garantir mais resultados e, com eles, almejar-se o lucro.

Há também a relação com os mais jovens dentro dessa comunidades, que reforçam a necessidade de contato com novas técnicas e tecnologias. Isso porque eles não se prendem mais aos costumes e são os que têm mais contato com o mundo exterior; conhecendo, assim, novos rumos. É possível que haja possibilidades de prosperar ali, que aquele espaço seja atrativo para as gerações mais jovens, cujas aspirações já foram fundamentalmente afetadas por uma socialização urbana e urbanizadora que começa na escola.

A relação com a religião fica mais intrínseca, como uma nova demonstração do que já foi dito em outras partes. A religião que, por muitas vezes, sustenta os indivíduos. Porém o foco é na apresentação de casos em que o auxílio dado por microcrédito realmente auxiliou o indivíduo, ou a não desistir de seu empreendimento ou de ser o capital inicial de criação de um. Muitos deles usaram do crédito para sair do trabalho na ilegalidade, como vendedores ambulantes por exemplo, passando a se instalarem em estandes ou lojas em feiras. Isso principalmente pela vontade deles de ter garantias e seguranças no trabalho, ligadas a maior lucro também.

A busca pela organização e legalidade se torna ponto diferenciador entre o grupo de batalhadores e a ralé estrutural delinquente. Interesse também deles de se distanciarem do grupo que originam e que não querem ser relacionados ou reconhecidos como se ainda fossem. Isso por questões de adquirirem respeito e confiança em diferentes formas ou situações e das classes consideradas por eles superiores. Isso estando presente em ensinamentos de gerações enraizados no que se é considerado a família e os preceitos religiosos que seguem.

Uma reflexão importante sobre como os batalhadores administram o dinheiro tanto que recebem de lucro das vendas de seus produtos ou atividades, bem como aquele proveniente de créditos. Muitas vezes o dinheiro é usado para resoluções imediatas sem planejamento de poupança ou investimento. A justificativa clara é a necessidade de pagamento de dívidas. Muitas vezes o dinheiro retirado do microcrédito não é usado para investir no empreendimento do indivíduo e sim, para saldar débitos anteriores referentes a negócios mal feitos, falta de planejamento ou períodos com falta de lucro. Não que esse procedimento seja um erro, porque o saldo da dívida propicia aberturas de créditos e possibilidades de negociação até com fornecedores.

Outra situação interessante é o fato de eles usarem dinheiro de programas de auxílio para compra imediata de produtos de primeira necessidade das microempresas deles. Novamente sem planejamento e criação de estoque para ações e necessidades futuras, eles utilizam parte do dinheiro para conseguir negociar com fornecedores preços menores por ser uma transação com “dinheiro vivo”. Os estudados sabem que conseguindo mais descontos a possibilidade de lucro é maior e facilita o pagamento de contas e as compras da próxima vez. Esse é o básico, chegando a ser o máximo de planejamento que eles criam para as empresas, a projeção quase que mensal somente.

Isso é devido a característica proeminente de necessidade de ver resultados rápidos tanto nas atividades realizadas por eles quando no recebimento de lucros. Tanto que muitos podem ter aprendido algumas outras atividades ou adquirido algum curso especializante que são deixados de lado se o retorno da atividade não traz frutos logo. Um negócio que exige investimento e planejamento para retornos futuros não é de interesse deles, não por maldade, mas pelas necessidades da classe deles. Sendo essa uma das limitações mais evidentes da classe de batalhadores, tornando-se uma característica definidora deles.

Enfim o enfoque claro sobre a relação da religião com os batalhadores. A presença dela na construção do caráter, perseverança e obstinação deles em relação a vida trabalhadora é clara. A religião se torna o ponto de força e fé para acreditar que o esforço não é em vão e os frutos dele virão com a graça de Deus. Claro que, mesmo os mais fanáticos, têm a percepção que nada “cai do céu” e acredita que o criador reconhece o esforço e auxilia o homem, não da nada para ninguém, é o trabalhador que constrói seu caminho, mas todos têm um destino básico pré determinado que precisa se esforçar para alcançar.

Em termos gerais, depois de perpassar sobre o histórico da chegada das religiões pentecostais no Brasil e das variadas divisões e definições delas, a religião é importante formadora de indivíduos mais corretor, ou seja, dentro das leis por questões morais por ela apresentados. Na verdade, apresentados pelos líderes de células e pelos pastores.

Estes seres utilizam da palavra para não só conversar como disseminar suas experiências para servirem de exemplo para o liderados. Partindo do princípio que são poucos humanos que criam e seguem sozinhos sem se basear nas experiências dos outros, o ato de compartilhar gera familiarização da pessoa com a situação e podendo ver caminhos e resoluções para ela, como se aproximasse os indivíduos.

Também é apresentado outro ponto que separa os batalhadores da “ralé”. A consciência do errado gerando sentimento de culpa no futuro pelas atitudes negativas realizadas agora e oposto, o sentimento de gratificação e merecimento quando realizando atitudes positivas e quando não fazendo negativas. Todo esse sentimento de responsabilidade pelas atitudes que a “ralé” é privada, condenada pelo texto a praticar repetição imediata do “hedonismo delinquente”.

No texto, tentou-se distanciar da visão equivocada e caricatural criada para a religião, a de ser relacionada com divisão de classes do passado e ser a maior detentora de poder e opressora. Mostrando como ela está relacionada com a criação de foco do indivíduo e ser a base de força e fé para conseguir vencer, tornando-se um batalhador.


Por Victor Delábio Ferraz de Almeida Meira

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